Maus fígados, objectivos comuns. Uma conversa com Ricardo Mangerona cover art

Maus fígados, objectivos comuns. Uma conversa com Ricardo Mangerona

Maus fígados, objectivos comuns. Uma conversa com Ricardo Mangerona

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Nesta república de sonsos, em breve o ódio terá o melhor de nós, a parcela que, num acesso revoltoso, se esforça ainda por compreender o estado das coisas, e será a última expressão contendo um verdadeiro sinal de fervor, uma paixão indomesticada, e o melhor de um antigo anseio confessional, que, vendo-se livre das peias da civilização, se mostrará tomado por essa virulência de ordem mais ou menos espasmódica, impetuosa, capaz de introduzir algum nível de contraste neste mundo. De resto, à nossa volta tudo é cada vez mais cruel e frio, desapaixonado, incapaz de justificar-se senão com essa lógica desprezível daqueles que parecem dispostos a sacrificar tudo em seu nome, de forma que as existências mais degradantes estão defendidas pelo mais rasteiro dos propósitos, que é o da auto-preservação. De qualquer modo, naquele mundo que hoje temos diante de nós, todo o bem é demasiado relativo, e só no mal se acha ainda algum empenho em direcção ao absoluto. Ansiamos por um tempo que já não nos foi dado viver a não ser por vislumbres, visitações em que certos estados fricativos pareciam apossar-se de nós, e tomávamos o embalo de fúrias que foram sendo vistas sempre como o sinal de que um ser se desatrelou, perdeu o eixo, a noção, danou-se, deu a sua carne e espírito de alimento àquelas regiões mais sórdidas, baixas, infernosas… Por isso se pressente como só em horas perdidas os seres se entregam às explorações dessa dimensão de treva que temos sempre trancada nos fundos. Mas se o ódio às vezes tem em si o melhor de um tipo, e somos levados a livrar-nos desse manancial, a tê-lo como uma substância de que devemos envergonhar-nos, seria bom pensar porque é assim. Num mundo em que de qualquer modo, “cada um, de seu próprio passo, vai para o Diabo à sua maneira” (William Hazlitt), não deixa de ser curioso como ódio se tornou uma reserva íntima, sendo-lhe recusado qualquer papel na vida pública, e o seu efeito no campo político é sempre encarado como algo que os espíritos lúcidos devem contrariar, exorcisar. Como assinala David Graeber, hoje tendemos a assumir que a expressão “política do ódio” possui necessariamente conotações de direita (uma vez que normalmente é aplicada ao racismo, ao ódio étnico ou à homofobia) e, por consequência, que o tabu em torno da expressão do ódio político representa uma vitória de sensibilidades essencialmente de esquerda. Mais à frente, nesse ensaio em que este ensaísta comprometido com o anarquismo nos diz que o ódio foi transformado num tabu político, ele nota como a própria ideia de “crime de ódio” inverte o princípio jurídico tradicional segundo o qual um crime passional deve ser punido menos severamente do que um crime motivado por cálculo frio e interesse pessoal.” Talvez não seja coincidência que a vaga de legislação contra crimes de ódio nos anos 90 tenha sido rapidamente seguida por legislação ‘antiterrorista’, a qual igualmente estipula penas mais pesadas para crimes motivados por paixões políticas (e, dada a forma como as leis costumam ser redigidas, essas paixões podem incluir o mais benevolente idealismo ou amor pela humanidade ou pela natureza) do que para os mesmos crimes cometidos por lucro económico ou interesse privado.” O capitalismo não é senão o triunfo daqueles que dominam uma violência tremenda mas carregada de subterfúgios, de ordem sempre excepcional, o que faz vigorar uma espécie de burocracia torcionária, que consegue sempre construir as excepções que acabam por tornar nulas todas as funções de justiça, e, desse modo, são precisamente os miseráveis que triunfam e impõem as suas funções de ordem escatológica. "Fizeram-se leis, morais, estéticas, para vos impor o respeito pelas coisas frágeis”, dizia Louis Aragon, antes de desferir o seu golpe: “O que é frágil é para partir." Vemos como por toda a parte estamos imersos nos rigores processionais dessa liturgia pública dos sentimentos bondosos, dos valores que são esgrimidos virtuosamente nos discursos, mas que exprimem sempre uma certa dose de consternação diante do mundo, como se alguma coisa tivesse ido contra os planos. Enquanto isso é o ódio que parece levantar suspeitas, como se fosse uma excrescência arcaica, um resto tóxico da animalidade histórica, algo a evacuar por via higiénica, farmacológica ou policial. O ódio tornou-se o afecto interdito. Já não apenas um vício, mas uma espécie de crime atmosférico, e, desse mesmo modo, tudo deve ser moderado, reciclado, transformado em “desconforto”, “mal-estar”, “polarização”. Contudo, por detrás desta moral desinfectada, o ressentimento alastra por toda a parte, tantas vezes acicatado pelas zonas onde a regulação dinamiza um quotidiano em que vamos à procura uns dos outros nessa Cybéria, a fossa da internet 2.0, contaminada pela estimulação nevrótica das burocracias quando ...
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