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Enterrados no Jardim

Enterrados no Jardim

By: Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
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Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que só aí andam a causar pavor e fazer da vida uma austera, apagada e vil tristeza.© 2024 Enterrados no Jardim Art Literary History & Criticism Social Sciences
Episodes
  • Crónica dos pássaros dissecados em pleno voo. Outra conversa com Margarida David Cardoso
    Apr 4 2026
    O meu demónio quer saber onde está o divã. Quer deitar-se nele e dar início ao disparate que tivemos de interromper da última vez. De qualquer modo ficamos sempre a meio. É impossível chegar a algum lado com estes rodeios delirantes em que nos pomos a escavar tudo o que há. Já se esqueceu de como se pôs a escarafunchar aquele pedaço de mobília, a imitação de couro, e agora estamos aqui os dois e temos de nos encarar. Há zonas do tecto que já denotam o abuso das infiltrações. É difícil um tipo abstrair-se sem sentir que os pensamentos o vão empurrando para aquela sensação de fractura, de que algo no interior parece ameaçado, está a ruir. Antes de conseguirmos interpretar fosse o que fosse, eram ruídos, só depois, e por facilidade, começaram a distinguir-se, a parecer-se com vozes. A trama começa sempre como algo inconsequente, um detalhe para a qual nos chama a atenção, adora estender um fio, agarra-se seja ao que for, e amarra o mundo entre coincidências. É cansativo ligar tudo, inventar sempre um propósito. Como se o acaso se esquecesse de nos pôr a mão, aliviar o peso, lembrar-nos que o mais importante é muitas vezes não dar tanta importância a certas coisas. É assim que tudo começa a parecer errado, a exagerar os motivos, os padrões, tudo se torna tão insistente. Parece que somos presas da nossa atenção espavorida. Tudo se articula por meio de vertigens, e de súbito há demasiadas rimas, não conseguimos deixar de sentir que o que antes parecia mudo, indiferente, agora se encheu de uma eloquência bastante dramática, e é preciso fazer alguma coisa, a realidade parece tomada de um frémito, encadeia tudo e atira-nos com uma série de imperativos. Há uma urgência devastadora que se lança sobre nós como uma febre, e parece que o destino geral do mundo pode depender do nosso êxito ou fracasso. Quem diria que ter tanta certeza pudesse ser ainda mais nauseante do que sentir-se completamente perdido. Pior que ficar sem chão pode ser a sensação de que o céu faz sentir todo seu peso nos nossos ombros. Talvez tenhamos chegado a isto numa inversão súbita desse sentimento prolongado de inadequação. De tanto nos sentirmos incapazes, revoltantemente impotentes, talvez se tenha operado em nós esse inesperado desenvolvimento que passa por livrar-se da dúvida, ser-se incapaz da relativização, de uma perspectiva parcial, limitada, como se só pudéssemos lidar em termos absolutos. Seria como imaginar-se um deus, um deles, esses que só podem estar loucos, uma vez que o excesso de realidade consegue ser a pior forma de demência. Como se esta tivesse encontrado um meio de infiltrar-se na nossa interioridade. Queixamo-nos tanto da sensação de vazio, mas raras vezes imaginámos como o contrário poderia tornar-se tão mais avassalador. Quando se inventaram os deuses talvez tenha sido para isto, para libertar espaço, para aliviar algum do peso. O mundo, o que lhe acontece, é lá com eles. Assim também podíamos virar-nos para os nossos demónios, negociar umas tréguas com as nossas fraquezas. Mas na humanidade começou essa conversa das grandes proezas, das disciplinas férreas, do génio, da superação dos limites. Que grande porra. Essas pérfidas religiões da eficácia, do progresso. Muito em breve parecia que o grande projecto seria exponenciar os elementos por um efeito de aceleração constante. Tiveram uma intuição danada os revolucionários franceses quando se puseram a disparar contra os relógios nos espaços públicos. Afinal, o que é um relógio? “Uma forma de parcelar a existência em fragmentos definidos e actividades regulamentadas. Um adorno com funções policiais”, responde Vivian Abenshushan, num dos ensaios do seu Escritos para Desocupados (ed. Cutelo), aquele texto em que parece intuir que a grande doença do nosso tempo, vem do elemento central de dominação a que estamos submetidos: “Notas sobre os doentes da velocidade”, eis o título. Porque o tempo lido enquanto urgência, faz com o tic-tac sejam sentidos como esporas, alguém a apertar connosco, a inquietar-nos, e nós, começamos a sentir-nos em falta, a viver atrasados, arrastando-nos para preencher a projecção, como se uma sombra nos precedesse, assombrados já não pelo que temos atrás de nós, mas por previsões, expectativas, como se fôssemos precedidos sempre por uma promessa que fomos coagidos a fazer. “De um processo da natureza, o relógio converte o tempo numa mercadoria que se pode medir, comprar e vender, como tecidos ou sabonetes” (George Woodcock). Hoje, e contrariamente ao que pensa, só os preguiçosos ainda revelam algum carácter, pois esses seres obstinadamente lentos são aqueles que se mostraram capazes de se desenvencilhar dessas caricaturas esfaimadas que a civilização lança em cima de cada um de nós, cobrindo-nos de promessas de triunfo. Os preguiçosos, no entanto, preferem pequenas doses de eternidade, e desenvolvem as ...
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    3 hrs and 49 mins
  • A Manosfera e os Drag Kings. Outra conversa com Maria João Faustino
    Mar 29 2026
    “Também a ‘realidade’ dos corpos inocentes foi violada, manipulada, adulterada pelo poder consumista: mais ainda, essa violência sobre os corpos tornou-se o dado mais flagrante da nova época humana… As vidas sexuais privadas (como a minha) sofreram o trauma tanto da falsa tolerância como da degradação corporal, e aquilo que nas fantasias sexuais era dor e alegria tornou-se uma desilusão suicida, uma acídia informe”, escreve Pasolini, apontando aos elementos da mutação antropológica provocada pelo consumismo, à falsa tolerância sexual e à degradação dos corpos sob o novo poder hedonista-capitalista. Pasolini entendeu que o novo poder não reprime a sexualidade, como fazia o antigo poder repressivo, mas liberta-a de forma estratégica para a integrar no circuito do consumo, transformando os corpos em objectos homogéneos, normalizados, disponíveis, e destruindo a antiga dimensão trágica, ambígua e vital da experiência sexual. Aquilo que antes, na imaginação erótica, continha uma tensão entre dor e alegria, entre transgressão e descoberta, dissolve-se agora numa espécie de apatia informe, uma acídia moderna, onde já não há verdadeiro desejo, apenas repetição e desgaste. No fundo, também os corpos deixaram de ser um dado imediato, uma evidência silenciosa, tendo-se adaptado como peças de um puzzle numa imensa superfície de inscrição, campo de operações, zona de cálculo onde se cruzam métricas invisíveis, índices de desejabilidade, rastos de atenção, e aquilo que outrora se vivia como intimidade, como reserva obscura de dor e de prazer, aparece agora exposto a uma espécie de engenharia contínua, um ajustamento fino que não se limita a moldar comportamentos mas reconfigura a própria percepção do que pode ser desejado, tolerado, rejeitado, e é neste ponto que a falsa tolerância de que fala Pasolini não surge como abertura mas como técnica, uma ampliação controlada do possível que apenas serve para intensificar a captura, porque tudo o que é permitido é também imediatamente codificado, quantificado, integrado numa circulação mais vasta onde o corpo já não se pertence. Laura Bates tem analisado a forma como os jovens, hoje, entram em espaços digitais já saturados de uma linguagem que não inventaram, fórmulas prontas, estatísticas falsas, imagens reiteradas até à anestesia, e aquilo que se apresenta como discurso pessoal é na verdade a reverberação de um circuito onde o ressentimento foi previamente processado, refinado, embalado, pronto a ser consumido e reproduzido, como se alguém tivesse antecipado a ferida e lhe tivesse fornecido o vocabulário antes mesmo de ela ser sentida. Há um momento em Cosmópolis (Don DeLillo) em que o fluxo de capitais se torna quase indistinguível de um sistema nervoso, pulsações, variações mínimas, sinais que atravessam a cidade sem corpo visível, e talvez seja necessário pensar o presente a partir dessa mesma lógica, porque os algoritmos que governam as plataformas não fazem senão prolongar esse movimento, traduzindo afectos em dados, convertendo inseguranças em trajectórias previsíveis, fazendo da ansiedade um activo negociável, e nesse circuito fechado o corpo surge como terminal, ponto de entrada e de saída, atravessado por comandos que não se anunciam como tal, sugestões que se acumulam, microajustes que acabam por redefinir a própria textura da experiência. O que se observa nas comunidades descritas por Bates, nesses espaços onde a misoginia se densifica até adquirir consistência quase doutrinal, não é simplesmente uma reacção, é uma espécie de alinhamento com esta lógica mais profunda, uma convergência entre a economia dos afectos e a economia do capital, porque o ressentimento não é aqui um subproduto mas uma força motriz, algo que mantém o sistema em movimento, que garante a sua continuidade, e por isso mesmo é cultivado, amplificado, canalizado, nunca resolvido, nunca dissipado, apenas deslocado de um objecto para outro, sempre suficientemente próximo para ser reconhecível, sempre suficientemente distante para evitar qualquer confronto com as estruturas que o produzem. Os dados acumulam-se, curvas de atenção, tempos de permanência, padrões de interação, e por trás dessa acumulação há uma espécie de cartografia obscura, um mapeamento contínuo das vulnerabilidades, zonas de fragilidade onde o sujeito se torna mais permeável, mais disponível, e é precisamente aí que a intervenção ocorre, não sob a forma de uma imposição mas como uma sequência de coincidências, conteúdos que parecem responder a uma inquietação ainda mal formulada, imagens que antecipam um desejo ainda difuso, discursos que oferecem uma explicação simples para uma sensação complexa, e assim se constrói uma adesão que não passa pela convicção mas pela familiaridade, pelo reconhecimento imediato de algo que parece já ter sido pensado. A sexualidade, ...
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    4 hrs and 27 mins
  • Ler livros de história num bordel em Alexandria. Uma conversa com José Luís Costa
    Mar 20 2026
    “Daqui por mil anos não restará nada/ de quanto foi escrito neste século./ Hão-de ler-se frases soltas, pegadas/ de mulheres perdidas,/ fragmentos de crianças imóveis,/ os teus olhos lentos e verdes/ simplesmente não existirão./ Será como a Antologia Grega,/ ainda mais distante,/ como uma praia no inverno/ para outro assombro e outra indiferença”, escreve Bolaño, ditando essa perspectiva que, estranhamente, não deixa de nos agradar muitíssimo. Perdidas todas as batalhas, poderemos encantar-nos com o sabor daquilo que não tem a obrigação de perdurar. “Seremos pasto de tumbas ignoradas”, adianta Juana Bignozzi, poderemos colher ideias frescas nas oficinas esquecidas, poderemos esquecer o prestígio ridículo dos inventores e entregarmo-nos aos anseios desses grandes coleccionadores, aproveitando o desdém generalizado pelo que teve o seu tempo e, se lhe fosse dada a escolha, não regressaria a este mundo. Neste eterno crepúsculo com cadências de silêncios, o próprio tempo parece uma matéria que só nos é permitido revisitar em velhas gravações, murmúrios indisciplinados vertidos entre línguas que caíram em desuso, variações mais e menos audíveis que vamos ponderando a partir de algum rumor medieval. Nesse percurso solitário daqueles que se entregam aos prazeres da derrota entre o vaivém das fronteiras, vemo-los fumar de olhos semicerrados, recitar bardos provençais, e a distância parece já ser a única linguagem poética. Seja para diante, com a pouca inteligência que nos resta, seja na direcção que nos dá mais escolhas, a que se desdobra atrás de nós, terão cessado esses reclames luminosos que remexem e tornam intragáveis as noites, esse ar cheio do zumbido de nomes que ficaremos aliviados por não mais termos de pronunciar, e, então, redescobrir-se-á os sinais desse deus da estranheza de que fala um poeta alemão que se acolheu brevemente entre nós por estes dias, essa espécie de trégua que nos aguarda depois de todo o desencanto moral com a época, uma desistência que nos leva à lembrança de outros mortos. Há muito que aquele velho nos advertira sobre um enredo intransitável como a pior forma de compreensão da vida, a perda do fascínio num mundo que não seria mais que a sombra de velhas destruições, as quais se foram tornando ilegíveis para nós, e, portanto, incompreensíveis. Com essa indiferente soberania que passou a dominar a relação com o passado, não saberíamos mais o que nos motivou, e, em breve, mesmo o desejo não escaparia já às “pérfidas emboscadas pavlovianas” (Bolaño). O transporte dos deuses teria de ser feito na alma, teriam de ser recriados por cada um na sua mente, trazendo de volta a raiva e outras paixões, condimentando-as com inebriantes especiarias de toda a espécie. Tudo o que nos ensinam é a vergonha e o desprezo por um mundo no qual a raça surge nas suas variações mais urgentes, misturando subtileza e sobressalto, pequenos gestos nessa escala epigramática que poderá ainda gerar em nós a ânsia de nos libertarmos de uma época sem a menor promessa, “imbuída de um sentido medíocre de autopreservação que é afinal uma forma de cobardia e de fechamento intelectual” (Tatiana Faia). Nestes dias em que tudo o que diz respeito à humanidade parece depender da nossa memória, o furor logo transforma em olhar histórico o nosso modo de encadear os signos e detalhes empenhados em evadir-se dos constrangimentos de um presente sem saída. “Se os mitos, os relatos, os livros ‘são’ a nossa infância”, lembra José Emilio Pacheco, isto deve-se a ser com eles que “aprendemos a conhecer o mundo, pois, como acreditava Cesare Pavese, ninguém admira uma paisagem antes de que a arte, a poesia – até uma simples palavra – lhe tenham aberto os olhos”. Numa época que não parece estar interessada noutra coisa senão em abandonar-nos às convicções mais grotescas, limitando-se a garantir o direito das pessoas de se comerem umas às outras (infelizmente, apenas e só no pior dos sentidos), quando vemos toda essa carga de desdém em que a poesia ou reverte para as lógicas de publicidade e competição ou é ignorada, em que vemos o corpus tradicional da cultura desfazer-se instantaneamente em pó, como um cadáver num túmulo aberto depois de passar muito tempo selado, o poeta vê-se obrigado a fechar-se com o passado que possa salvar, cultivando o seu estilo áspero e tenso, e nem por isso devastado, mas consciente, sensual, capaz de se debruçar sobre episódios históricos e adivinhar as fendas eróticas, tentando escavar uma saída face a este tempo que serve de morada aos malditos filisteus para quem o mundo não passa de um saco de ossos. É neste género onde se acolhem uma imaginação e desejo tão hábeis no modo de se ocultar e aguardar o momento propício para se deixarem revelar, que Kaváfis provou ser o mais sagaz dos cicerones, abrindo passagens, revelando percursos ...
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    4 hrs and 47 mins
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