• A Balsa da Medusa. Uma conversa com Margarida Davim
    May 29 2026
    Tudo o que disser aqui pode ser usado contra si. E não é assim, e cada vez mais, em toda a parte? Parece que temos alguma coisa contra a vida. Por princípio, e contrariamente ao que se diz. Só isso explica a falta de ar, a falta de vidas absurdas. No seu estado de demência mais benigna, percebe-se como o mundo cedeu a uma imensa nostalgia do passado. Ninguém saberia, contudo, situá-lo. Na verdade, são doenças da nossa falta de memória. Os delírios de uns débeis. Mas vez por outra lá se cruza connosco um desses seres descarrilados, vendendo beijos com sabor a cerveja, contrariando a ideia de que tudo só se passa muito longe, no cu do mundo. Ainda antes de isso ser tido como um acto político, era vista com o batom a transbordar sempre um pouco dos lábios. O desastre torna-se sugestivo a partir de certa altura, e há quem se apegue a ele, desenvolva por esses sinais uma estima imensa. A realidade, no fundo, interessa-nos muito pouco. Só a partir do momento em que alguém se dispõe a recuperar velhas cassetes, as gravações soluçantes, ficando buracos que é preciso compensar. Uma canção que toca ao longe e que quase se deixa reconhecer, e também a partir de frases cortadas uma linguagem que nos parece desconhecida, feita de réplicas oferecidas em lugares esquecidos. É preferível quando alguém só conhece uma versão parcial, e faz dela o seu todo. Não se põe a investigar todas as circunstâncias, porque a partir de certa altura a enxurrada dos acontecimentos devasta qualquer possibilidade de segurar uma narrativa mais firme. «Não ser amada é um acto de terror», disse ela. Só ter para mostrar a quem a visita naquele quartinho infecto «um coração cheio de moscas negras». E, nas paredes, balouçando, «um alfabeto de más experiências.» É o de sempre: histórias gaguejantes, overdoses, comprimidos para dormir, os bibelôs para compor uma solidão de deserto, e a clara sensação de que tudo caminha para o seu fim. São as impressões o que respira no meio dos relatos. Todos sabemos secretamente que as histórias estão mortas há muito. Hoje, só nos sonhos não nos sentimos ali despejados, desfeitos. Só nos sonhos, as impossibilidades não se apresentam como impossibilidades. Michael Marder diz-nos que após a segunda morte de Deus, convencionalmente chamada secularização, o vazadouro global incita à expiação do ser através da massa em energia, potencialidade pura, inflamável e explosiva. «A existência é tolerada desde que nada permaneça quieto, os seres não se detenham no interior dos seus limites próprios e o próprio ser acelere a caminho do nada.» Por isso prefiro ler como quem tem a sensação de ouvir alguém perdido num transe, como Sara Stridsberg a recolher os sinais da passagem de Valerie Solanas por este mundo. Falar-nos daquele quarto do Hotel Bristol, em abril de 1988, daquela cama que «é um deserto em chamas de tudo o que não fizeste e de tudo o que fizeste mal, profunda como dez mil braças de água de oceanos de tudo o que esqueceste e de todas as vezes que te esqueceste de dizer adeus.» Morreu ali, aos 52 anos, como uma personagem de quem se dizia que não tinha os parafusos todos. Mais um nome a juntar a uma lista, que poderia seguir assim: Valerie. Marilyn. Roslyn. Ulrike. Sylvia. Há tantos narradores empenhados em chegar ao fundo da verdade, apenas para descobrirem que à medida que se aproximam as frases se tornam vazias, tomadas de uma irresolução, de uma fundamental inépcia retórica. Por isso, as histórias são só uma força de atiçar, manter a tensão, para levar as pessoas a confiarem naquilo que já viveram e sabem. Assim sendo, que importa que o narrador exagere ou minta? Que importa saber quem é o narrador? Cada um está entregue ao que viveu já e a partir disso está disposto a imaginar. «A tua memória é um passador», diz uma delas. Todos se esfalfam por abordar um material genuíno, mas acaba por valer mais essa voz capaz de demorar-se até ficar com os pensamentos encardidos, a roupa suja, revelar as suas sujas intenções, a sua baixeza. No fundo, para que alguma coisa sobreviva a este mundo precisa ser arrancada às suas circunstâncias, aquilo que fica na memória dos que registam apenas os contornos mais frios, essa cultura geral da indiferença. Solanas ficou conhecida apenas como mais outra histérica, a feminista radical que, nos anos sessenta, disparou três tiros sobre Andy Warhol, depois de ter participado num dos seus filmes. Os dois primeiros tiros falharam o alvo, mas o terceiro perfurou-lhe o esófago, o estômago, o baço, o fígado e os pulmões. Um ano após o atentado, que a levou a ser internada com um diagnóstico de esquizofrenia, Warhol posou para uma fotografia com a camisa arregaçada, exibindo as marcas das cirurgias. Aquelas cicatrizes deram-lhe a gravidade que lhe permitiam afastar-se da figura de um patético cadáver disponível a tudo para somar mais uns minutos. Havia ali ...
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    4 hrs and 18 mins
  • Malcriados, malnascidos, estrangeiros e apátridas. Uma conversa com Diogo Nóbrega
    May 22 2026
    “Também Diane Arbus nos deu, na sua fotografia,/ da loucura não o refúgio (o asilo) mas a corrida/ (atrevida) – ou o passo de dança (Disse, Dança?)./ ‘Pass through the fire to the light’, de novo L. Reed.” Isto é uma costela dessas que arrancamos para palitar a boca que gostaríamos de refazer a cada par de meses, dominados por um assombro que nos leve a um tal grau de estranheza que não tenhamos notícias nenhumas de quem costumávamos ser. Lemos a poesia para cair longe, para desaparecermos, sermos desses que se dão como perdidos. E a tal costela, neste caso, arrancada de um poema de Fernando Guerreiro, segue-se a um desses começos tão auspiciosos por estarem lançados no meio da maior confusão, nessa sua alteração interminável do estilo, uma alegria de ter por objecto o acidente, de viver variado, ir sabendo de si como de algo extraviado, assim, um ser disponível ao trespasse, fantasma de outros, fora dos eixos da sua biografia, abrindo-se a uma temporalidade mais vasta, inquietante… E o tal poema, esse belo estafermo, arranca assim: “Nada de obras completas – apenas champanhe, na primavera e um romance./ Por vezes esquecemo-nos de como morrer é simples –/ de sopro, no coração ou mesmo de cancro./ Num poema de Lou Reed todas as arritmias do espírito/ seriam resolvidas no aneurisma fluido do ritmo.” E aqui vemos Kafka passar ao fundo, aditando uma brevíssima explicação dos seus modos tão esquivos: “Evito as pessoas não porque quero viver sossegadamente, mas sim porque quero morrer sossegadamente.” É um abandono próprio de quem nunca, na verdade, teve qualquer margem de recuo na existência, e entendeu que pelo menos tinha direito a uma morte que não desse espectáculo, que não viesse a servir de gala a larvas e moscas. Afinal, o abandono é a morada que resta àqueles que nunca conheceram neste mundo uma condição propriamente doméstica. Cícero recordava aqui há um bocado um belo dito de Anaxágoras… “este filósofo agonizava em Lâmpsaco e os seus amigos perguntaram-lhe se ele queria, caso acontecesse uma desgraça, que o transportassem para Clazómenas, a sua pátria: ‘É absolutamente inútil’, disse Anaxágoras, ‘de onde quer que se parta para os Infernos, o caminho é o mesmo.’ Mas voltemos à fotografia de Diane Arbus e ao poema de Guerreiro: “talvez seja isso a loucura/ um Haloween dos subúrbios – uma ronda dos espíritos/ em que cada um entra, antes de regressar ao seu túmulo,/ para ensaiar (invertido no seu negativo) uma contra-dança./ Todos juntos, a máscara é ao mesmo tempo o que une e distingue – a bata: o impulso da forma, por onde a carne s’adelgaça – e o corpo, avança.” De algum modo esta é uma sensação comum, a de que este tempo como está só nos oferece um adeus intencionalmente arrastado em duração, a urgência de fazer um tempo contra o mundo, cada um arrastando as correntes para se manter acordado, deixando um rasto húmido e negro, como lesma ulcerosa e maldita. E assim acaba o mundo, não como uma coisa realmente tenebrosa, mas como algo que se faz esperar, ao ponto de alguns se queixarem de até nessa última hora estarmos sujeitos aos atrasos, a ficar na fila que não avança. “Mas esta porra não anda?”, resmunga alguém. Llansol diz que teve conhecimento não sabe onde de rituais primitivos de enterro em que se esvaziava a cavidade ventral de todas as vísceras do morto e aí se depositavam bilhetes com votos escritos… Talvez um ritual desses pudesse devolver algum impulso ao que se escreve, e, por mais que frágeis, nesse bafio doce daquilo que se usa para rechear o morto, talvez isso despertasse uma outra urgência dos vivos para com a vida. Seria um esforço a favor de uma persistência menos ordinária, e isto num momento em que aquilo a que por estes dias se usa tomar como uma atitude culta não é mais que uma disposição para sacralizar disparates, para se entregar a esses tributos que a estupidez presta ao orgulho. Os autores morrem cheios de tesão. Alguém os convenceu de que algo subsistirá dos seus espíritos, e andam por aí convencidos de que essa vergonha de serem inteiramente devassados pela fome da terra, não só pelos nossos corpos, mas por todos os sinais da nossa existência, a eles não poderá roer tudo, uma vez que lhe vão impondo um certo limite. Leram em Steiner que leu em Baruck de Mezbizh… “Quando uma palavra é pronunciada em nome do seu autor, os lábios deste movem-se dentro do túmulo. E os lábios de quem profere a palavra movem-se do mesmo modo que os do Mestre já morto.” É fácil detectar essa gravidade dos que falam com a confiança de que alguém fará deles mestres num porvir de dar à corda, mas a subtileza dos espíritos, toda essa delicadeza dos que desejam repetir-se pela eternidade fora, é precisamente aquilo que mais nos cansa, quando começamos a suspeitar que o verdadeiro génio é a coisa menos talentosa que há. Não ...
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    4 hrs and 39 mins
  • Maus fígados, objectivos comuns. Uma conversa com Ricardo Mangerona
    May 15 2026
    Nesta república de sonsos, em breve o ódio terá o melhor de nós, a parcela que, num acesso revoltoso, se esforça ainda por compreender o estado das coisas, e será a última expressão contendo um verdadeiro sinal de fervor, uma paixão indomesticada, e o melhor de um antigo anseio confessional, que, vendo-se livre das peias da civilização, se mostrará tomado por essa virulência de ordem mais ou menos espasmódica, impetuosa, capaz de introduzir algum nível de contraste neste mundo. De resto, à nossa volta tudo é cada vez mais cruel e frio, desapaixonado, incapaz de justificar-se senão com essa lógica desprezível daqueles que parecem dispostos a sacrificar tudo em seu nome, de forma que as existências mais degradantes estão defendidas pelo mais rasteiro dos propósitos, que é o da auto-preservação. De qualquer modo, naquele mundo que hoje temos diante de nós, todo o bem é demasiado relativo, e só no mal se acha ainda algum empenho em direcção ao absoluto. Ansiamos por um tempo que já não nos foi dado viver a não ser por vislumbres, visitações em que certos estados fricativos pareciam apossar-se de nós, e tomávamos o embalo de fúrias que foram sendo vistas sempre como o sinal de que um ser se desatrelou, perdeu o eixo, a noção, danou-se, deu a sua carne e espírito de alimento àquelas regiões mais sórdidas, baixas, infernosas… Por isso se pressente como só em horas perdidas os seres se entregam às explorações dessa dimensão de treva que temos sempre trancada nos fundos. Mas se o ódio às vezes tem em si o melhor de um tipo, e somos levados a livrar-nos desse manancial, a tê-lo como uma substância de que devemos envergonhar-nos, seria bom pensar porque é assim. Num mundo em que de qualquer modo, “cada um, de seu próprio passo, vai para o Diabo à sua maneira” (William Hazlitt), não deixa de ser curioso como ódio se tornou uma reserva íntima, sendo-lhe recusado qualquer papel na vida pública, e o seu efeito no campo político é sempre encarado como algo que os espíritos lúcidos devem contrariar, exorcisar. Como assinala David Graeber, hoje tendemos a assumir que a expressão “política do ódio” possui necessariamente conotações de direita (uma vez que normalmente é aplicada ao racismo, ao ódio étnico ou à homofobia) e, por consequência, que o tabu em torno da expressão do ódio político representa uma vitória de sensibilidades essencialmente de esquerda. Mais à frente, nesse ensaio em que este ensaísta comprometido com o anarquismo nos diz que o ódio foi transformado num tabu político, ele nota como a própria ideia de “crime de ódio” inverte o princípio jurídico tradicional segundo o qual um crime passional deve ser punido menos severamente do que um crime motivado por cálculo frio e interesse pessoal.” Talvez não seja coincidência que a vaga de legislação contra crimes de ódio nos anos 90 tenha sido rapidamente seguida por legislação ‘antiterrorista’, a qual igualmente estipula penas mais pesadas para crimes motivados por paixões políticas (e, dada a forma como as leis costumam ser redigidas, essas paixões podem incluir o mais benevolente idealismo ou amor pela humanidade ou pela natureza) do que para os mesmos crimes cometidos por lucro económico ou interesse privado.” O capitalismo não é senão o triunfo daqueles que dominam uma violência tremenda mas carregada de subterfúgios, de ordem sempre excepcional, o que faz vigorar uma espécie de burocracia torcionária, que consegue sempre construir as excepções que acabam por tornar nulas todas as funções de justiça, e, desse modo, são precisamente os miseráveis que triunfam e impõem as suas funções de ordem escatológica. "Fizeram-se leis, morais, estéticas, para vos impor o respeito pelas coisas frágeis”, dizia Louis Aragon, antes de desferir o seu golpe: “O que é frágil é para partir." Vemos como por toda a parte estamos imersos nos rigores processionais dessa liturgia pública dos sentimentos bondosos, dos valores que são esgrimidos virtuosamente nos discursos, mas que exprimem sempre uma certa dose de consternação diante do mundo, como se alguma coisa tivesse ido contra os planos. Enquanto isso é o ódio que parece levantar suspeitas, como se fosse uma excrescência arcaica, um resto tóxico da animalidade histórica, algo a evacuar por via higiénica, farmacológica ou policial. O ódio tornou-se o afecto interdito. Já não apenas um vício, mas uma espécie de crime atmosférico, e, desse mesmo modo, tudo deve ser moderado, reciclado, transformado em “desconforto”, “mal-estar”, “polarização”. Contudo, por detrás desta moral desinfectada, o ressentimento alastra por toda a parte, tantas vezes acicatado pelas zonas onde a regulação dinamiza um quotidiano em que vamos à procura uns dos outros nessa Cybéria, a fossa da internet 2.0, contaminada pela estimulação nevrótica das burocracias quando ...
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    3 hrs and 57 mins
  • Exorcisar o medo, escapar à tragédia. Uma conversa com Lourença Baldaque
    May 9 2026
    De toda a parte nos chegam avisos quanto a uma crise de autores teatrais, ou do conto, do romance, géneros que déramos como adquiridos, elementos constantes de uma plena função cultural, mas se se perdeu o entusiasmo das formas, aquela audácia com que se partia da realidade como de um mote para depois se tratar certos temas com um cuidado obstinado em animar de um sopro vital algo que pode, sem ele, tornar-se débil, apenas arrastando uma convenção oficial e cansada, há alturas em que tudo o que resta são pequenos salteadores da tradição, que a única coisa que lhe trazem é aquele gesto insolente, cabriolante, blasfemo, trabalhando verdades cada vez mais somíticas, tão parciais que acabam por só dispor de turvos factos e figuras que se desfazem em pó mal as examinamos de perto. Agustina notava que em certas alturas tendem a proliferar as melancolias dos pequenos talentos, sendo que estas chegam a assemelhar-se a infâmias calculadas. Adivinhou há três décadas que aquilo que nos esperava era um crescendo da ganância e uma cultura pedante que se imitaria para não ter que se inventar a si mesma. Não estamos já na companhia desses perdulários encantadores, mas dos associais das superestruturas, e não há já aquela capacidade de se defenderem do mundo alimentando-se da canção perdida que é o passado. No máximo temos nalguns a erudição malabarista, uma instrução que fede as mais das vezes a desembaraçados preconceitos, a banalidade aristocratizada do que passa por sabedoria, mas nada daquela inteligência convulsa, monstruosa, como essa criatura estupenda que se fixou entre nós, e que, entre só umas poucas mais, gozavam desse prestígio dos que punham na boca de cada um dos que com elas se cruzavam as únicas palavras que alguma vez pronunciaram. Impor-se com toda a relevância é um talento assombroso, mas hoje, tenham mais ou menos recursos, é difícil reconhecer nesses frágeis actores, que representam numa teatralidade tosca e excessiva o tal privilégio dos que movem o poder da criação, uma verdadeira intensidade. Não vemos que, nas coisas de que se ocupam com essa luz repartida e triste, consiga nascer seja o que for. Até as mentiras são cada vez mais inábeis… “Não mentem como dantes, não há qualquer contrato de persuasão, de conquista, na mentira”, diz-nos Agustina. “Hoje mente-se por manifesta insolência, quer-se dizer apenas ‘vê que a tua opinião me é indiferente e o que podes pensar não me causa nenhuma perturbação’. Eu vi diante dos meus olhos essa mentira desesperada e fútil”… Surgia, assim, uma geração que mente friamente, assim como se avilta friamente, e nisso escoa todo o seu drama. Não quer contratos com a sabedoria e com a experiência, e depois só resta uma espécie de leviandade carismática. Se em tempos esta escritora podia notar que “a alma de um homem é feita de muitas tentativas doutras almas”, hoje parece até um excesso romântico servir-se desses termos, quando o que prevalece é “o canibalismo moral”, a sede irreprimível de possuir súbditos, seguidores, de subjugar a vontade dos demais, sendo certo que, “quanto mais débil é uma sociedade, mais activa parece ser”, e damos por uns seres que não conseguem seguir nenhum argumento, nenhuma intriga arrojada, nada senão um rastilho boateiro, ficando-se longe daquela indiscrição da inteligência, ficando por dizer o que antes o nevoeiro consertava, esse pigmento de alma que nos era introduzido e que não era nem mero sentimento nem outra coisa que pudesse facilmente ser descrita, mas aquilo a que Agustina chamou “um sabor hamletiano que os portugueses regelam na pele, como se um povo inteiro nele se contivesse, na clausura da sua hereditariedade na fermentação do destino”. Podem até ser exageros de quem sempre nos foi dizendo que não lutava por pessoas ou coisas, mas por sínteses, e que vinha para o romance como para um piano velho, deixando a meninice dedilhar e cantar, com aquele gozo que a música desperta nas feras. Depois dessas ousadias que mais temos senão a tal febre de fatalismo que tomou conta de tudo?, a azeda turbulência e os motivos a que cada um se agarra entre enganos e tristezas remoídas, para de si mesmas transmitirem uma impressão forte, cercadas dos milhares de pessoas manejadas pela publicidade, pela nevrose colectiva de corresponder ao século, no que este tem de programa alienatório. Assim, “tudo são prorrogações e leve maceração de consciências", e, independentemente da forma, não se dá por um escrever e pensar com aquela audácia vingativa. “O que devia ser alado precipita-se no chão sujo dum palco; o que devia ser narrativa poética faz-se uma força antiquada da qual se evade sem pena a nossa imaginação. O que devia surpreender aborrece; o que é fruto de glória parece raquítica pretensão.” Deste modo vemos o processo cultural abster-se de um verdadeiro programa, de tudo aquilo que ...
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    4 hrs and 58 mins
  • Poeta: profissão liberal. Uma conversa com João Vasco Rodrigues e Nuno dos Santos Sousa
    May 2 2026
    A natureza não dá satisfações. À sua semelhança, também a poesia faz o que precisa fazer, e ninguém deve esperar que se enrede em justificações. Por outro lado, a crítica é uma arte de se mostrar audaz nos motivos que articula, como um criminoso, que fosse dispensado de cumprir qualquer tipo de pena, considerando-se que as motivações eram de tal forma eloquentes que até esse sabujo do homem médio, no seu papel, reconhece que não teria feito outra coisa, se ao menos estivesse dotado de alguma força de carácter e de coragem. Mas, por estes dias, ninguém admite como qualquer proeza significativa deve estar animada de um ímpeto e intenção criminosos, de uma paixão capaz de arrastar com ela e revirar todos os pressupostos, como se a moral se aliviasse da regularidade dos antecedentes para dar origem a uma fronteira e uma via por dentro do impensável, pelo menos até ali. Mas se pensarmos na cultura, aquela de que dispomos ao nosso redor, os exemplos mais propalados, nenhum nos adianta de nada. E o que nos servem os jornais, além dessas estatísticas sanitárias, pois se entre toda aquela jactância há muito não damos por uma ganância da realidade, as estrondosas expectativas que admitem efeitos perversos, bruscos, a vantagem de uma fantasia desordeira, e nem ao menos a sóbria e vesperal magia hebdomadária? O próprio amanhã tornou-se-nos inalcançável. Sim, porque mesmo nas condições de miséria moral actuais, todos se põem a negociar um mínimo. “Sim, porque ainda estamos no crepúsculo moribundo do amanhã, ainda podemos vislumbrar a ideia do futuro”, assinala J.G. Ballard. “Mas os meus filhos, ou os adolescentes de hoje, não estão interessados no futuro. Todas as possibilidades das suas vidas estão contidas dentro de um conjunto diferente de perspectivas, uma vida interior. Se olharmos para os últimos dez anos, podemos ver um contínuo recuo para o interior. Eu cunhei a expressão 'espaço interior' há cerca de dez anos e, geralmente, as previsões dos escritores de ficção científica provam-se erradas com 100 por cento de consistência, mas neste caso eu estava certamente certo: o que se vê é a morte do espaço exterior, o fracasso da aterragem na lua em excitar a imaginação de alguém a um nível real, e a descoberta do espaço interior em termos de sexo, drogas, meditação, misticismo. Basta olhar para a carreira dos Beatles e vê-se este recuo do exterior por etapas constantes, através das drogas, depois da meditação, para um envolvimento mais ou menos completo com os seus próprios corpos. Lennon e Yoko parecem estar a redescobrir a existência táctil, a realidade orgânica dos seus próprios abraços, e isso é muito bonito, eu acho.” Afinal, também esta leitura e previsão acabou por envelhecer mal, azedou, foi para lá do ponto. O interior tornou-se uma espécie de fuga, um álibi, um furo por onde toda a realidade vai escoando. Acabamos por ser levados a reconhecer que não há fundo para a capacidade de cada um, pelas suas razões infindáveis, pela economia das suas forças e por gestão de riscos, tirar o corpo da situação, todos tiram o corpo, e, no final, a realidade vê-se inteiramente abandonada por esta espécie. Aquele cabrão do Pasolini é que se mostrou mais presciente do que todos eles, por nunca se ter fixado em géneros desses que se especializam, e topou-nos bem os vícios, este modo de viver às arrecuas: "Encontramos assim um momento imponderável da cultura, um vazio cultural, povoado por escritores, cada um dos quais mais não faz que seguir a história particular, como numa ilha linguística ou numa área conservadora. Não se trata da crise habitual, mas de um facto totalmente novo, que evidentemente se repercute nas estruturas da sociedade." Talvez devêssemos esquecer por uns anos a longa tradição, fundar um período de intervalo, não regar os vasos, deixar toda essa vegetação que nos cobre o juízo definhar, não agir de acordo com os pressupostos, atacar as convenções, assumir o lado deficiente, ficar reduzido aos modos mais directos, aos elementos de ligação, aos contactos em que elegemos este ou aquele, e não uma suposta audiência, não alimentando a conveniência dos públicos enfartados da arte e de todos os seus produtos. Poderíamos ficar-nos pelos gestos tão fáceis de serem omitidos, dos quais muitas vezes só resta um carimbo, um selo, um minúsculo sinal de sentido tão limitado. Poderíamos voltar às correspondências que exigem algum grau de cumplicidade, os postais, as missivas que tinham um destinatário mais ou menos seguro, remontar os rastros “desses escritos desajeitados em que, no fundo, não se diz outra coisa senão que se continua vivo e que esperamos voltar a ver‑nos em breve”, aventa Georges Perec… “parece-me que emerge algo que constitui o próprio tecido da nossa existência no que ela tem de mais quotidiano e próximo: uma história esquecida, tão pouco ...
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    4 hrs and 33 mins
  • A inteligência de ficar para último. Outra conversa com Patrícia Câmara
    Apr 24 2026
    Exaustos de seres virados do avesso, sem interior, protagonistas incapazes de se despirem no escuro, trabalhando essa luz desesperada que vai de escândalo em escândalo, tínhamo-nos procurado retirar entre aquilo que nos restava, gestos roubados dos longos filmes, como os víramos em miúdos, a clareza que nos diz que a violência é como a poesia, pois não se corrige, antes aceita o desastre, capaz de ir até ao fim. Andávamos à procura disso a que antes chamavam realidade, e que parecia fixar a fronteira para o que é exterior e não se deixa comover facilmente. Mas o mais difícil de suportar era a companhia de uma gente que participava por meio de charadas inconsequentes e de ausências cada vez mais prolongadas. Éramos à vez as personagens castigadas uns dos outros, amolecidas ou rudes, um pouco ridículas, irritantes, a duas dimensões, consoante a perspectiva, respirando um ar demasiado artificial, numas macaqueações patéticas, sempre um tanto presunçosos, estéreis, vagamente cultos, empertigados, meio delirantes, e tão cansativos, parecia que faltava aquela genialidade generosa de quem é capaz de escutar dos outros o que não traz já em si, previsto, devastado, alguém que desse as graças a deus nenhum senão esse que nos serve algo além da frivolidade, um abandono propício. Nesse ambiente, como era de esperar, triunfavam o género de narradores medianos, voluntariosos, que nos vinham com as variações degradadas do que em tempos nos causara um espanto geral. Com essa mediania voluntariosa, diluíam tudo, até perdermos o sabor daquilo que tínhamos vivido. Só a experiência poderia ensinar àquele que nos habituávamos a perder, abdicando dele a favor de fantasias miseráveis, um movimento decisivo na imensa matéria anónima incapaz de remediar toda a desordem que já não responde por nenhum plano. Estávamos sufocados ao ponto de não sabermos o que restara depois de destruirmos os nossos hábitos (e em nome do quê?), até aqueles simples cuidados de tradução, de decifração, alguns costumes de inteligência, que justificam o empenho em não perder inteiramente o contacto com a maldosa existência dos adultos. Basta pensar no breve ritual diário em que tantos homens com uma posição a defender fazem o nó da gravata, muitas vezes ao espelho, ensaiando a expressão com que se recomendam ao mundo. Além de uma possibilidade de introspecção, com aqueles gestos parecem dar-se a possibilidade de reconhecer esse módico de risco e sacrifício, um sinal que os aparenta aos enforcados, ou o vestígio de uma trela que se ostenta entre o pescoço e a cintura, como se toda a ambição os fizesse incorrer nessa espécie de redil, nesse sufoco comum de quem aceita todos esses rigores, obrigando-se a flutuar num mar de prescrições, de códigos e de maquinações religiosas, se pensarmos como cada um rezava intimamente ao deus das vinganças, a um desejo de uma ordem ainda mais sórdida, da qual pudéssemos sair a ganhar. Parecia que todo o talento se havia concentrado de forma obsessiva e mesquinha, e, desse modo, tantos passavam o seu tempo a inventar subdivisões, escalões nos quais uns e outros pudessem subir e descer. Tínhamo-nos imposto um jogo inextricável de distâncias sociais em que toda a gente se introduzia e se reconhecia com uma destreza maravilhosa, degraus hierárquicos, competências infinitamente cruéis, rituais absorventes, que dissipavam toda a nossa capacidade de suspensão, de nos destacarmos face a nós mesmos e àquela trama. Mas uma vez por outra, alargando-se num gesto até ele perder qualquer propósito imediato, havia alguns que se conseguiam lembrar daquela ambição de nos tornarmos anacrónicos, sermos como que desviados por acasos, e víamo-nos a inscrever frases tão soltas, nas quais nada era prescrito, nada parecia proibido, nem a modéstia ou o deboche. Perante a ausência de deuses e de anjos, de categorias menos quantificáveis, achávamo-nos de súbito tão pobres, despojados dos símbolos da piedade e das leis, dos catecismos, dos cultos, das palavras de ordem. Tinha sido para isso que havíamos começado a inscrever aqueles signos, sinais de uma pobreza que ansiava por se livrar do excesso de palavras, recolhendo a cada momento só aquelas que pareciam ter uma capacidade de suspender, não presumir mais nada. As mesas podiam não estar dispostas ao mesmo tempo num mesmo espaço, mas criavam um ambiente, uma zona intermédia, onde as máquinas de escrever iam inscrevendo sem descanso esses sinais negros, com a existência daquelas pessoas a consistir num esforço de combiná-los, desfazê-los, recombiná-los, tentando resgatar algo, uma experiência, fazer valer a sua teimosia, sendo raros aqueles que podiam desgastar-se e entorpecer as suas ânsias, dando-se liberdade para registar essas necessidades estranhas à sua vontade, aos seus desejos, tudo aquilo que nos outros chega a parecer calamitoso, a forma como nos assaltam com as ...
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    2 hrs and 56 mins
  • A intensidade dos condenados. Uma conversa com Victor Barros
    Apr 17 2026
    Desta vez, tivemos de nos ficar pelos trabalhos preparatórios, já que este texto, que costuma ser redigido depois, teve de ser apressado, vindo antes, e a previsão é que Victor Barros (cabo-verdiano, historiador doutorado pela Universidade de Coimbra, com uma tese sobre a construção da memória do império português nas colónias em África, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e autor de vários artigos sobre Amílcar Cabral) se tenha juntado a nós para discutirmos as questões do colonialismo, o papel de Cabral como figura sediciosa decisiva para aquele enredo revoltoso que viria a encorajar a nossa própria luta de libertação, fazendo estalar o regime desde as colónias portuguesas até à metrópole, permitindo um raro momento de combate político em que chegou a supor-se que Portugal pudesse ser uma responsabilidade comum, e não um assunto decidido por muito poucos, com uma cultura reservada à contemplação dos seus interesses. Mas agora, aqui, e para os efeitos deste exercício, que nunca se quis ficar por um descritivo dos episódios, antes uma contribuição acessória, um devaneio ulterior, desta vez, e para permitir uma leitura das linhas de tensão que organizam, hoje, a única verdadeira fractura no nosso campo político, vamo-nos ficar por um exercício de colagem de dois textos. Começamos pelo longo excerto de um ensaio de Vivian Abenshushan, em Escritos para Desocupados, quando recorda que no Génesis, Adão e Eva tentaram repartir de modo equitativo a penitência da chamada divisão do trabalho – entre os seus filhos: Caim obteria a propriedade de toda a terra; Abel seria dono de todo o gado. Um deles dedicar-se-ia ao cultivo; o outro, à pastorícia. É provável que os irmãos tivessem pouco tempo livre para pregarem partidas e brincarem juntos na encosta do vasto campo, algo que a longo prazo teria ajudado a criar um vínculo entre eles, evitando assim o desenlace fratricida. Um dia, Abel e Caim fizeram as suas oferendas a Deus (um deles sacrificou um carneiro; o outro ofereceu um fruto da terra), mas Deus, sempre insondável, só aceitou a oferenda de Abel. Furioso, Caim matou, como toda a gente sabe, o seu irmão. As interpretações deste episódio sangrento não se fizeram esperar. De entre todas elas, há uma que aponta para o nascimento de um antagonismo ancestral: aquele que existe entre trabalhadores e ociosos. Assim o indicam as raízes dos seus nomes: Caim (do árabe gain, «o ferreiro») poderia ser identificado com o homo faber, o homem que fabrica ferramentas, aquele que exerce a sua vontade transformadora sobre a matéria. Ele forja o arado para lavrar e também o martelo para acertar o golpe. Tem uma mão equipada, uma mão presa ao trabalho, uma mão plena. Raras vezes essa mão se põe a tamborilar. Ela é puro músculo: abre sulcos, aplana a terra, subjuga brotos, edifica. É a mão do trabalhador. Graças à ferramenta, essa extensão incisiva do corpo, Caim e os seus descendentes conseguem dominar as vastidões selvagens e criar um novo mundo artificial. São os construtores das primeiras cidades, mais tarde associadas à corrupção e à perda de sentido espiritual. A alma de Caim é sedentária; enraíza-se na terra que cultiva, funda os costumes, adquire direitos sobre o solo. Assim o expressa outra raiz do seu nome, a proveniente do verbo hebraico kanah: adquirir, subjugar. Caim é, então, obter, possuir e, portanto, governar ou o proprietário, o que possui, e também o praticante das artes da tecnologia necessárias para abrir caminhos e conquistar. Nele, convergem as forças contraditórias da civilização: a ferramenta e a arma, a invenção criadora e a violência. Abel, do hebraico hebel: alento, sopro, nada, pertence, por seu turno, à estirpe dos nómadas, dos que se deslocam continuamente como o ar. Em vez de assentar como o agricultor, move-se por onde o seu rebanho o leva. Abel não depende de nenhum lugar concreto, pois o seu sustento vai com ele para toda a parte. E multiplica-se sem necessidade de trabalhar! Na primeira repartição laboral da humanidade, coube ao pastor o lado menos áspero, menos sujeito aos rigores do clima e ao esforço físico da vida agrária. Talvez por isso, contrariamente a Caim, Abel não se extenue. É mais livre, mais leve e tem muito tempo para a ociosidade. Sempre que os seus animais encontram o sítio exacto para se alimentarem, ele descobre-se no meio de um tempo vazio, distendido, o tempo que o homo ludens dedica aos seus jogos e meditações. Ei-lo auto-absorto à sombra das árvores, vendo as horas a passar como se não existissem. Opõe-se totalmente ao tempo programado de Caim, tempo associado à produção, ao cultivo e ao trabalho, um tempo útil em torno do qual a vida se ordena. Abel é um habitante natural do ócio, ser tranquilo e errabundo, cioso da sua autonomia, alheio às hierarquias da aldeia. Nele, não germinou a vontade de ...
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    3 hrs and 51 mins
  • Tenho saudades da Comuna de Paris. Uma conversa com Joana Craveiro
    Apr 10 2026
    Certa vez Herzog recomendou o cinema como uma arte tão cativante por se manter imune às obsessões dos eruditos, sendo um recreio dos iletrados. Nietzsche desdenhava daqueles que assumem a leitura como um passatempo, essa figura do leitor passivo, que se entrega a um consumo de ideias sem as levar a qualquer efeito. “As primeiras línguas foram cantadas e apaixonadas antes de decaírem, como parcelas frias, metódicas”, dirá Rousseau. “Tudo o que era directamente vivido afastou-se numa representação”… Não faltam variações para esse sinal de um excesso que tão mal disfarça uma deserção, porque acabam por ser muitas vezes aqueles que mais cedo impõem as suas reservas, que raramente assumem qualquer tipo de adesão, de vontade e convicção num ou noutro sentido, aqueles que mais reclamam a capacidade de “inventar o que nunca seriam capazes de viver e fingir que acreditam no que demonstram quotidianamente não lhes interessar” (Eduarda Dionísio). Há uma justa suspeita em relação a um modo de se fazer cercar de signos culturais sem se deixar afectar verdadeiramente por eles. Por todo o lado, vemos como abundam os letrados que se satisfazem num convívio com as palavras em que estas acabam por dizer o contrário daquilo que pareciam ter dito antes; o que tinha uma intensidade, uma razão de ser, perde-a na boca deles. Por isso, esta espécie deve ser encarada com a maior desconfiança, pela profusão de livros e de admiráveis referências que acumulam sem, depois, serem capazes de transmitir nem gosto nem solicitude, muito menos uma paixão. Vemos como trazem sempre muitos livros, muita “cultura”, mas depois todas essas palavras rodam sobre um vazio que asfixia os conceitos, e o que resta é uma língua que, sem poesia, se torna puramente repetitiva, não fazendo vibrar nada. Talvez por isso Barthes gostasse da divisão, das parcelas, das miniaturas, dos anéis, das precisões cintilantes, dos recortes, de uma frágil perspectiva, do traço, de uma escrita que se fica pelo fragmento, uma imagem pendurada, uma sugestão imperfeita. Há um regime cultural que já não se dirige ao comum das pessoas, nem ao indivíduo, mas define essas grandes impersonalidades que parecem ser os perfis mais constantes num tempo em que deixar-se ser profundamente afectado é um sinal de imaturidade, e a nossa sociedade proíbe as batalhas frontais. Tudo se quer corriqueiro, leve, a língua ela mesma está eivada de um ranço crescente, parece reaccionária, enquanto triunfam esses mestres pacóvios que são acolhidos em órgãos de informação cada vez mais assépticos, submetidos sempre àquela infinita solvabilidade dos planos, de tal modo que a propaganda se cose a partir de enredos lenitivos, sendo a moderação precisamente o efeito de censura mais perverso, pois vem varrer todos os traços de polémica, de crítica acerba, ad hominem, para que possa seguir aquele regime de informação orientada, e triunfe a nossa empresa nacional de descerebralização. “No fim, a verdade desaparecerá do mundo (pois a verdade é uma personalidade) e a única coisa que se poderá ouvir será a ventriloquia da espécie humana” (Kierkegaard). Vemos como as palavras são usadas para exibir uma pertença, uma etiqueta, mas nunca implicam nada. A agilidade dos actuais cicerones liga-se a uma certa indiferença. A política para eles é uma ocupação puramente ociosa. “E acho também que finalmente não sonham com qualquer sociedade nem têm qualquer projecto, não se trata de utopia, mas de projecto, não têm qualquer projecto, só têm o sentido do dever das reformas, reformar sem agitar, reformar sem iludir nem desiludir, reformar sem fazer nascer planos que possam ser aberrações, sem chocar, sem violentar as famílias silenciosas nas grandes casas, os lojistas aflitos, os comerciantes que viajam, os industriais nos grandes cruzeiros de verão. Reformar silenciosamente, mantendo o mau gosto que consola e os vícios dourados, os bares, as grandes caçadas, a criadagem nos hotéis e nos palácios – para toda a gente; para toda a gente; os mariscos; as bebidas raras; o álcool; o perfume; destruindo a imaginação muito devagar através da possessão regular e crescente das coisas e dos nomes”… “Pessoas que se fizeram muito velhas e se encontram sempre ao lado do destino”, diz-nos Eduarda Dionísio. O pior é que crescemos e vemos as nossas forças e oportunidades desvanecerem-se enquanto estes “heróis de barro cozido em forno morno” se revezam, e nunca nos saem da frente. Queríamos encontrar zonas onde fosse possível traficar esses perigosos objectos clandestinos, mas está tudo ocupado, e temos sempre de andar sufocados entre o regime burocrático e essa nauseante orgia de literatura que não leva a nada. Enquanto se desencorajam as posturas mais combativas, o compromisso vai no sentido de varrer a substância histórica desta terra para montar sobre ela um templo de patranhas, ...
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    3 hrs and 44 mins