“Também a ‘realidade’ dos corpos inocentes foi violada, manipulada, adulterada pelo poder consumista: mais ainda, essa violência sobre os corpos tornou-se o dado mais flagrante da nova época humana… As vidas sexuais privadas (como a minha) sofreram o trauma tanto da falsa tolerância como da degradação corporal, e aquilo que nas fantasias sexuais era dor e alegria tornou-se uma desilusão suicida, uma acídia informe”, escreve Pasolini, apontando aos elementos da mutação antropológica provocada pelo consumismo, à falsa tolerância sexual e à degradação dos corpos sob o novo poder hedonista-capitalista. Pasolini entendeu que o novo poder não reprime a sexualidade, como fazia o antigo poder repressivo, mas liberta-a de forma estratégica para a integrar no circuito do consumo, transformando os corpos em objectos homogéneos, normalizados, disponíveis, e destruindo a antiga dimensão trágica, ambígua e vital da experiência sexual. Aquilo que antes, na imaginação erótica, continha uma tensão entre dor e alegria, entre transgressão e descoberta, dissolve-se agora numa espécie de apatia informe, uma acídia moderna, onde já não há verdadeiro desejo, apenas repetição e desgaste. No fundo, também os corpos deixaram de ser um dado imediato, uma evidência silenciosa, tendo-se adaptado como peças de um puzzle numa imensa superfície de inscrição, campo de operações, zona de cálculo onde se cruzam métricas invisíveis, índices de desejabilidade, rastos de atenção, e aquilo que outrora se vivia como intimidade, como reserva obscura de dor e de prazer, aparece agora exposto a uma espécie de engenharia contínua, um ajustamento fino que não se limita a moldar comportamentos mas reconfigura a própria percepção do que pode ser desejado, tolerado, rejeitado, e é neste ponto que a falsa tolerância de que fala Pasolini não surge como abertura mas como técnica, uma ampliação controlada do possível que apenas serve para intensificar a captura, porque tudo o que é permitido é também imediatamente codificado, quantificado, integrado numa circulação mais vasta onde o corpo já não se pertence. Laura Bates tem analisado a forma como os jovens, hoje, entram em espaços digitais já saturados de uma linguagem que não inventaram, fórmulas prontas, estatísticas falsas, imagens reiteradas até à anestesia, e aquilo que se apresenta como discurso pessoal é na verdade a reverberação de um circuito onde o ressentimento foi previamente processado, refinado, embalado, pronto a ser consumido e reproduzido, como se alguém tivesse antecipado a ferida e lhe tivesse fornecido o vocabulário antes mesmo de ela ser sentida. Há um momento em Cosmópolis (Don DeLillo) em que o fluxo de capitais se torna quase indistinguível de um sistema nervoso, pulsações, variações mínimas, sinais que atravessam a cidade sem corpo visível, e talvez seja necessário pensar o presente a partir dessa mesma lógica, porque os algoritmos que governam as plataformas não fazem senão prolongar esse movimento, traduzindo afectos em dados, convertendo inseguranças em trajectórias previsíveis, fazendo da ansiedade um activo negociável, e nesse circuito fechado o corpo surge como terminal, ponto de entrada e de saída, atravessado por comandos que não se anunciam como tal, sugestões que se acumulam, microajustes que acabam por redefinir a própria textura da experiência. O que se observa nas comunidades descritas por Bates, nesses espaços onde a misoginia se densifica até adquirir consistência quase doutrinal, não é simplesmente uma reacção, é uma espécie de alinhamento com esta lógica mais profunda, uma convergência entre a economia dos afectos e a economia do capital, porque o ressentimento não é aqui um subproduto mas uma força motriz, algo que mantém o sistema em movimento, que garante a sua continuidade, e por isso mesmo é cultivado, amplificado, canalizado, nunca resolvido, nunca dissipado, apenas deslocado de um objecto para outro, sempre suficientemente próximo para ser reconhecível, sempre suficientemente distante para evitar qualquer confronto com as estruturas que o produzem. Os dados acumulam-se, curvas de atenção, tempos de permanência, padrões de interação, e por trás dessa acumulação há uma espécie de cartografia obscura, um mapeamento contínuo das vulnerabilidades, zonas de fragilidade onde o sujeito se torna mais permeável, mais disponível, e é precisamente aí que a intervenção ocorre, não sob a forma de uma imposição mas como uma sequência de coincidências, conteúdos que parecem responder a uma inquietação ainda mal formulada, imagens que antecipam um desejo ainda difuso, discursos que oferecem uma explicação simples para uma sensação complexa, e assim se constrói uma adesão que não passa pela convicção mas pela familiaridade, pelo reconhecimento imediato de algo que parece já ter sido pensado. A sexualidade, ...
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